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A quali viu primeiro

Tem uma situação que acontece com certa frequência no meu trabalho e que sempre me diz muito sobre como as empresas se relacionam com pesquisa. O cliente recebe os resultados, ouve um achado que não esperava, e a primeira reação é desconfiar. Não porque o dado seja fraco, mas porque ele contradiz algo que o cliente já sabia. Ou achava que sabia.


Foi o que aconteceu num estudo onde a pesquisa qualitativa identificou uma mudança clara de comportamento entre gerações numa categoria que o cliente conhecia bem. Ele tinha histórico, tinha estudos anteriores, tinha convicção. O achado novo não cabia no que ele já tinha mapeado.

O problema é que estudos anteriores capturam o que já existe. E o que estava aparecendo em campo era justamente o que estava deixando de existir.


Esse é o ponto onde a pesquisa qualitativa e o foresight se encontram. O conceito de sinal fraco (desenvolvido por Igor Ansoff nos anos 70 e central nos métodos de foresight até hoje) descreve exatamente isso: uma informação ainda incipiente, sem massa crítica suficiente para aparecer em dado quantitativo, mas que carrega uma mudança em curso. Sinais fracos não gritam. Eles aparecem nas bordas, nas contradições, nas hesitações de quem você entrevista.


A pesquisa qualitativa bem conduzida é um dos melhores ambientes para capturar esses sinais. Não por alguma razão mística, mas sim por criar condições para que o inesperado apareça. Uma entrevista em profundidade deixa o entrevistado desenvolver raciocínios que um questionário fechado jamais permitiria. Um grupo bem moderado revela tensões entre o que as pessoas dizem que fazem e o que de fato fazem. É nessas brechas que os sinais fracos se manifestam.


No caso do meu cliente, o sinal estava fundamentado. Não era impressão, uma análise aprofundada evidenciava isso nos dados, na consistência entre perfis, na forma como uma geração descrevia a categoria de um jeito radicalmente diferente da anterior. O que faltava era número para confirmar. E aí está a armadilha: esperar o número significa esperar o sinal virar tendência. Quando a quanti confirma, a janela estratégica muitas vezes já está fechando.

Quali não substitui quanti. Mas numa empresa que quer se preparar para o futuro, ela precisa vir antes e ser ouvida.

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