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O roteiro não é um script

Quem vem do mundo da pesquisa quantitativa tende a chegar no roteiro qualitativo com uma expectativa de precisão: a pergunta certa, na ordem certa, com a palavra certa. Faz sentido porque no questionário a padronização é fundamental. Mudar uma palavra muda o dado.

Mas a lógica da quali é outra.


O roteiro qualitativo é uma estrutura de conversa, não um script. Ele define as áreas que precisam ser exploradas, não as frases que serão ditas. A moderadora que lê as perguntas como estão escritas, na sequência planejada, sem desviar, está fazendo exatamente o que não deveria: transformando uma conversa aberta num script programado.


E quando a moderadora não é ela mesma, quando está preocupada em seguir o texto à risca, o grupo percebe. A conversa perde naturalidade, as pessoas se recolhem, e o ambiente de confiança que a quali precisa para funcionar simplesmente não acontece.


Em campo, é frequente um participante introduzir uma informação, uma opinião ou uma conexão que não estava no roteiro. Ignorar isso para voltar à próxima pergunta planejada é desperdiçar exatamente o tipo de achado que só a quali consegue capturar.


A ordem também importa. O consumidor tem uma lógica própria para contar sua relação com uma categoria, uma marca, um hábito. Essa ordem espontânea é um dado. Quando a moderadora força a sequência planejada, ofusca algo que poderia ser revelador.

O roteiro é o norte, mas é na espontaneidade da conversa que está o caminho.

 

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@2020 by Freshpepper

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