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Pode falar, levanta a mão

Outro dia, moderando um grupo presencial, percebi algo estranho. Uma das participantes levantava a mão sempre que queria falar, mesmo quando ninguém estava com a palavra, mesmo em silêncio. Na segunda ou terceira vez, falei: pode falar, não precisa levantar a mão. Ela respondeu que não queria interromper ninguém.


Fiquei pensando nisso depois.


Fiz centenas de grupos presenciais antes da pandemia e nunca vi esse gesto. Conversa de grupo presencial sempre teve uma desordem própria: gente que fala junto, que interrompe, que completa a frase do outro, que ri antes de terminar de falar. É parte do clima. Ninguém levanta a mão numa roda de amigos.


Mas depois de alguns anos fazendo reuniões em Zoom, Meets, Teams, que oferecem o recurso de levantar a mão, talvez isso tenha migrado pro presencial. Como se o protocolo fosse mais importante que a espontaneidade, impedindo a sobreposição de vozes, ideias e trazendo o consentimento prévio como código de socialização.


É curioso imaginar até onde isso vai. Será que, daqui a alguns anos, vamos precisar moderar grupos presenciais como moderamos webinars, organizando uma fila de quem quer falar, mesmo estando todos na mesma sala, podendo se olhar nos olhos? Tomara que não!

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